sábado, 5 de julho de 2014

Cabaré histórico mais famoso de Campina desaba e deixa feridos

Marcos Maivado Marinho


Parte da cobertura do antigo ‘Cassino Eldorado’, localizado na Rua Manoel Pereira Araújo, a tradicional “Feira de Galinha”, centro de Campina Grande, desabou no início da tarde desta quinta-feira (03) e deixou pelo menos duas pessoas feridas. As vitimas seriam moradoras de rua que se abrigavam no local.


A estrutura estava abandonada há anos tempo e segundo o Corpo de Bombeiros era classificada como área de risco. Viaturas do SAMU e do corpo de Bombeiros foram acionadas para resgatar as vítimas e evacuar a área.


De acordo com o tenente Eurípedes, do Corpo de Bombeiros, os feridos estavam na parte superior do prédio e caíram quando o teto desabou. Eles tiveram ferimentos na cabeça. O perímetro foi isolado para evitar novos acidentes.


“As pessoas moradoras de rua vão à busca de qualquer abrigo, mas infelizmente não se atentam para a segurança”, disse.


O cabaré campinense foi construído como um símbolo dos “anos dourados”, vivenciados pela cidade quando o algodão era sinônimo de ouro. Para ser mais preciso, “ouro branco”, tal como se dizia na época.


No primeiro de julho de 1937, quando a cidade já era conhecida como “Liverpool Brasileira”, a edificação, em estilo art déco, já estava pronta para abrigar o “Eldorado”. O arquiteto Isaac Soares, responsável por essa histórica casa noturna, caprichou nos detalhes. Segundo Antônio Pereira de Moraes, no seu livro “Vi, Ouvi e Senti”, o Cassino Eldorado foi “... construído, especialmente com apartamentos para mulheres e dependências para jogos e diversões. Era dotado de um possante gerador, pois a luz pública deficiente apagava cedo. A sala do show-room tinha espaço para 36 dançarinos e exibição de artistas. Aos lados, 40 mesas com quatro assentos. Nas salas de jogos havia roleta 36, mesa de ronda (lasquinê), mesa bacará, mesa campista, mesa de Esplandim e mesas de poker”.


Estava pronto, enfim, o paraíso dos senhores do algodão, dos políticos e boêmios que formavam a socialite campinense. Lá, eles passariam noites memoráveis. O fastígio do poder econômico gerado pelo ciclo do algodão permitia a vinda de atrações internacionais e “camélias” do Recife e outros Estados vizinhos.


Só para se ter uma idéia, a inauguração do “Cassino Eldorado” foi feita com a participação dos artistas russos “Trotsky and Mary”, e o apresentador foi o próprio Trotsky, em virtude do “cabaretier” contratado, Catalano (ator do cinema nacional), ter chegado oito dias após a inauguração.


Pelo seu palco passaram artistas famosos como: Teda Diamante, Nenen, Sereia Negra (atriz, dançarina do cinema nacional), o casal mexicano Tapia Rubo, que fez sucesso no cinema de Hollywood, Paraguaíta e Clarita Diaz, cantora de tango da Argentina.


Antônio Pereira de Moraes conta ainda que “... foram cabaretiers (show-man) de 1937 a 1941, Catalano e Gaúcho. A orquestra era composta de seis músicos, alguns contratados fora. No início o violonista Abílio, saxofonista Raul Dinoá, pianista Zé Bochechinha, Jaime Seixas pianista, Jackson do Pandeiro, Manu saxofonista, etc".


Sem dúvida a história do “Eldorado” é página importante da história de Campina Grade. Hoje, seu prédio deteriorado denuncia a displicência do Poder Público municpal com o patrimônio histórico da cidade.


Uma réplica em madeira do Eldorado é anualmente montada no Parque do Povo durante o Maior São João do Mundo e reluz, em contraste com o desastre vivo da feira central. Este ano, por exemplo, a réplica foi cedida pela prefeitura para abrigar o luxuoso Bar do Cuscuz, com investimentos em dinheiro público e privado que seriam suficientes para reformar o original e evitar o problema hoje acontecido.


DESCULPA DE AMARELO


Com uma pífia argumentação, de que o prédio é privado e não público, o prefeito de Campina Grande, Romero Rodrigues, descartou em nota sua responsabilidade sobre o desabamento parcial do Cassino Eldorado, na feira central da cidade.


Ele disse que o Município não poderia promover intervenções na estrutura do prédio por se tratar de um patrimônio particular, mas que a desapropriação do mesmo consta no projeto de requalificação da feira.


Na verdade, faltou a Romero, como aos que o antecederam, vontade política para intervir em algo que a cidade sempre reclamou. Romero, por exemplo, já interviu em diversas outras áreas e bens privados, não sendo esta a desculpa melhor para encobrir a ineficiência da gestão.


Por valores milionários, por exemplo, o prefeito atual de Campina Grande desapropriou o antigo hospital João Ribeiro, beneficiando a conhecida família do médico homônimo. Fez o mesmo com os hospitais Pedro I, beneficiando setores elitistas da Maçonaria local. E desapropriou ainda o hospital Dr. Edgley, favorecendo o seu proprietário que estava em estado falimentar.


Romero também desapropriou uma vasta área no Ligeiro, pertencente ao espólio do ex-deputado Aluizio Campos, igualmente beneficiando a esposa do ex-vereador Perón Japiassu e sua família, herdeiras do saudoso parlamentar.


Na gestão passada, Veneziano também foi pródigo em desapropriações, sendo exemplo a da área da feira da Prata e a do antigo hospital Mater Dey, não havendo do ponto de vista legal e prático nenhuma justificativa para que o Eldorado não tivesse o mesmo tratamento.
A nota de Romero significa, na realidade, um choro sem lágrimas sobre um leite irresponsavelmente que ele deixou derramar.


Segue a nota:
Esclareço a respeito do lamentável desabamento de parte do histórico prédio do Cassino Eldorado, ocorrido na tarde desta quinta-feira, 03, que o imóvel não havia recebido ainda qualquer intervenção por parte da atual gestão municipal por se tratar de um bem privado.
O Eldorado é um imóvel particular, e o poder público não poderia investir recursos públicos em um bem de particular. Ainda assim, a desapropriação do prédio consta dos planos de requalificação da feira central.


Vamos levar o projeto adiante, porque a recuperação do Eldorado é parte importante do plano de requalificação da feira central. Trata-se de um patrimônio histórico que precisa ser recomposto, como um importante marco que é da história da nossa cidade.
Romero Rodrigues - Prefeito de Campina Grande.
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