quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Cientistas da USP dão um passo importante e, pela primeira vez, o Brasil produz um imunizante com potencial para conter o avanço do HIV


Encontrar uma vacina contra a Aids é uma das batalhas mais desafiadoras já travadas pela ciência. O HIV, vírus causador da doença, ainda detém a vantagem por sua incrível habilidade de se modificar e, assim, escapar da mira dos imunizantes em estudo. Na semana passada, a divulgação dos resultados positivos de um teste com uma nova vacina deu mais fôlego às esperanças de se chegar, um dia, a uma substância capaz de impedir a contaminação pelo vírus. E a boa notícia vem da Universidade de São Paulo, resultado de um trabalho feito por pesquisadores brasileiros. O recurso, desenvolvido e fabricado por especialistas da Faculdade de Medicina (FMUSP), foi ministrado a quatro macacos Rhesus da colônia do Instituto Butantan, em São Paulo.


PROMESSA
Cunha Neto testa em macacos uma vacina feita com conjunto de fragmentos do vírus HIV.
A imunidade dos animais aumentou mais do que se esperava



Os efeitos do imunizante, conhecido pela sigla HIVBr18, surpreenderam até mesmo o cientista que lidera o estudo, Edécio Cunha Neto, professor de imunologia da FMUSP. “Não esperava uma resposta tão boa dos macacos quando abri o estudo. Eles tiveram um aumento importante da imunidade”, diz o cientista. “No pior resultado, a imunidade deles contra o HIV aumentou entre três e cinco vezes em relação a testes anteriores com camundongos. No melhor, a capacidade de identificar o vírus e produzir anticorpos específicos aumentou até dez vezes.” As defesas dos primatas têm grande semelhança com o sistema imunológico humano. Além disso, esses animais são vulneráveis ao SIV, vírus com características muito parecidas com as do HIV. “As boas respostas do organismo dos macacos indicam que há maiores chances de dar certo também em humanos”, anima-se o pesquisador.

Não é a primeira vez que na luta contra a Aids se produz uma vacina eficiente em macacos. Mas o fármaco criado pela FMUSP é o único a reunir uma coleção tão grande de fragmentos do vírus – os pesquisadores combinaram em um mesmo imunizante 18 pequenos pedaços das proteínas (peptídeos) presentes no HIV. Isso qualifica a pesquisa brasileira. Em outros estudos realizados por centros de pesquisas internacionais, avaliaram-se conjuntos bem menores de proteínas do vírus. São esses peptídeos que provocam o sistema de defesa a produzir anticorpos contra eles. O corpo aprende a reconhecer o inimigo e a impedir seu avanço.


Outra especificidade do imunizante criado na universidade paulista é que as amostras foram extraídas de regiões do HIV mais preservadas de mutações. Isso é uma forma de dificultar tentativas do vírus de fugir do alcance da vacina usando suas mutações como subterfúgio e também de fazer com que o imunizante funcione para um número maior de pessoas. “Testes feitos in vitro com amostras de sangue de 32 portadores de HIV com condições genéticas e imunológicas bastante variadas mostraram que, em mais de 90% dos casos, pelo menos um dos peptídeos foi reconhecido por células de defesa do organismo”, conta Cunha Neto. O grupo desenvolveu então uma versão da vacina com fragmentos de todos os subtipos capazes de induzir respostas do organismo.


PERSPECTIVA
O americano Fauci acredita que novos dados sobre o funcionamento
do corpo e do vírus irão revigorar a busca da vacina

Até o final de 2014, o estudo feito com os quatro animais será ampliado para um total de 28 macacos. Nessa fase, os cientistas irão testar outros meios para inserir os fragmentos do HIV no organismo. A finalidade é escolher aquele que induzirá uma resposta mais forte antes de começarem os estudos em humanos. “Até agora usamos um adenovírus (causa resfriado). Vamos experimentar outros vírus, como o da vacina da febre amarela”, disse o especialista. Se tudo correr bem nesta etapa, a previsão é de que os testes em humanos comecem em três anos. Serão feitos com uma população saudável e com baixo risco de contrair o HIV. O objetivo é investigar a segurança do fármaco, a resposta imunológica que provoca e por quanto tempo os anticorpos permanecem no organismo.

A criação de uma vacina contra a Aids feita totalmente no Brasil é um marco na história da ciência nacional. É consenso: independentemente dos resultados finais que apresentará, o imunizante é uma prova de que importantes descobertas podem ser feitas quando o País consegue unir pesquisadores capacitados e recursos (estes, por sinal, na maioria das vezes estão aquém do necessário). De saída, a ciência brasileira já ganhou mais conhecimento sobre o vírus, sobre as técnicas capazes de estudá-lo e sobre as ferramentas usadas para criar uma vacina contra ele. É uma evolução e tanto.

Por outro lado, em relação às expectativas dirigidas ao desempenho final da vacina, prevalece a cautela. E é normal que seja assim, visto que a experiência da FMUSP se encontra ainda em etapa bastante preliminar. “O experimento com o grupo maior de macacos pode trazer dados interessantes e indicar se o trabalho irá em frente”, diz o virologista Ricardo Diaz, da Universidade Federal de São Paulo. “Já vimos muitas vacinas não passarem das fases iniciais de estudos”, observa o infectologista Artur Timerman, do Hospital Edmundo Vasconcellos, de São Paulo. O próprio responsável pelo trabalho também é ponderado. “Os resultados com os macacos são promissores, mas ainda existem muitas etapas a serem vencidas antes de realmente termos uma vacina eficaz em humanos”, diz.



Em artigo publicado recentemente na revista científica “The New England Journal of Medicine”, o cientista americano Anthony Fauci também se pergunta sobre o futuro das vacinas. Um dos pioneiros na pesquisa da Aids, ele está à frente do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos. Em seu artigo, Fauci comenta que o número de mortes e de pessoas infectadas pela Aids caiu cerca de um terço no mundo todo em relação aos seus momentos de maior pico. “Essa diminuição ocorreu sem uma vacina, o que coloca a questão se ela é necessária para acabar com a pandemia”, afirma o especialista.

Para ele, medidas como a terapia antirretroviral, a distribuição constante de preservativos e agulhas limpas, a prevenção da transmissão mãe-filho e as terapias preventivas de pré-exposição feitas com os próprios medicamentos antirretrovirais permitiram a redução do número de casos e mortes. Fauci defende, porém, que o mundo continue a buscar uma vacina para reforçar ainda mais as defesas. Ela será particularmente importante em lugares como muitos países africanos, onde a doença avança e faltam recursos de prevenção e de tratamento. “É essencial, ainda que não seja fácil de obter”, diz o pesquisador. “A única garantia de um final sustentado para a pandemia de Aids é uma combinação da prevenção com a implantação de um fundo suficiente e eficaz para a vacina de HIV”, argumenta o cientista. Fauci encerrou seu artigo convocando a comunidade envolvida na luta contra o HIV a se comprometer com a busca da vacina.


Cilene Pereira (cilene@istoe.com.br) e Mônica Tarantino (monica@istoe.com.br)

Fotos: Kelsen Fernandes, João Castellano - Ag. Istoé
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