quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Bill Gates viaja pelo mundo para convencer bilionários a doar suas fortunas


Stan Honda/AFP


O empresário e filantropo americano Bill Gates, 57, prepara uma série de viagens pelo mundo para convencer outros bilionários fora dos EUA a doar boa parte de suas fortunas para a filantropia --como ele mesmo já fez.

Ele também afirmou que países de renda média --como o Brasil-- deveriam doar mais e ajudar países "muito mais pobres" pelo mundo, especialmente em tecnologia agrícola e vacinação.

Em um hotel em Nova York, falando a um grupo de quatro jornais internacionais, entre eles a Folha (o único latino-americano), ele disse que conseguiu convencer 92 bilionários americanos a doar fortunas "muito antes do testamento, em vida, cobrando resultados e colocando seus conhecimentos para a filantropia".

O fundador da Microsoft vai anunciar que países irá visitar, dentro da campanha "Giving Pledge", em fevereiro. Gates já afirmou que deixará 95% de sua fortuna pessoal para a filantropia.

"Agora é hora de falar com bilionários pelo mundo. Muitos deles já fazem suas ações de filantropia, mas podemos fazer mais", disse. "Não será fácil, porque não existe a tradição. Pode até levar um tempo, mas vale a pena."

Gates lançou ontem a carta anual da Bill & Melinda Gates Foundation, criada em 2000, em que fala de progressos em educação e saúde, principalmente em países africanos e asiáticos. "É uma chance de compartilhar minhas visões, dar opiniões e falar de dados e inovação".

A íntegra da carta (já traduzida para o português) pode ser lida aqui.

À Folha Gates disse que o Brasil deve elevar a ajuda externa aos países mais pobres, o que outros países de "renda média" deveriam fazer mais.

"A Embrapa é um tesouro mundial, pois conhece profundamente os grãos e os solos tropicais, aquela informação valiosa para países africanos e asiáticos. O Brasil tem diversos acordos bilaterais, especialmente com a África lusófona, tem grandes programas de vacinação com o Butantan, mas sempre dá para fazer mais", afirmou.



CRISE

Tanto na carta quanto durante a entrevista, Gates falou repetidas vezes sobre a necessidade de medir resultados e de ter objetivos na filantropia.

Em tempos de crise, quando até tradicionais países doadores estão apertando os cintos, é importante saber exatamente os resultados "para que isso continue a ser uma prioridade para as pessoas, os contribuintes".

O filantropo disse que, "em um mundo com GPS, imagens por satélite, celulares onipresentes e softwares baratos", nunca foi tão fácil medir o impacto de programas e doações.

Na carta, ele fala de um projeto no Estado americano do Colorado, em que professoras são avaliadas pela performance dos alunos, em entrevistas e por "professoras-mentoras", entre as mais bem avaliadas do distrito, que passam 30% do seu tempo assistindo à aula de colegas.

EDUCAÇÃO

A tripla avaliação garante aumentos de salários e bônus para as professoras com a melhor avaliação, para reter as melhores no emprego.

"Os melhores países do mundo em avaliação de professores também estão entre os que têm alunos com melhores resultados em testes internacionais, como Cingapura e Coreia do Sul. Isso demonstra a vantagem da avaliação. Vão bem melhor do que os EUA", afirmou Gates.

"Mas, em muitas partes do mundo, ainda precisamos checar se os professores não estão faltando muito. Há o 'status quo' dos sindicatos, que não querem mudanças."

Ele disse que não sabe como é no Brasil, mas que, "no México e na África do Sul, os resultados dos alunos são ainda piores que nos EUA. Até as boas professoras ficam nervosas com a avaliação, mas precisamos dessa métrica".

Gates festejou o acordo entre a Khan Academy, da qual é doador, com a Fundação Lemann para traduzir e dublar as aulas do popular professor americano Salman Khan para o português. "O Brasil está no caminho certo para adotar as ferramentas tecnológicas para ajudar o professor."

CLIMA

Gates também se mostrou defensor dos Objetivos do Milênio da ONU. Afirmou que, ao contrário de tantos documentos que são arquivados e prontamente esquecidos, os objetivos, por terem números claros e metas realistas, foram sendo cumpridos.

Mas disse que está na hora de "refinar" e de atualizar os tais objetivos. Incluindo, ainda, "objetivos climáticos". "Pode ser difícil colocar China e Estados Unidos para atingir essas metas, mas ainda há 193 países para chegar a um acordo", afirmou.

Ele contou um pouco de suas últimas viagens por Nigéria, Etiópia e Índia e disse ver progressos em todas as áreas, "mais do que a maioria dos analistas". "Sou um grande otimista, mas é fato que a vida dos mais pobres melhorou muito nos últimos 15 anos."


RAUL JUSTE LORES
DE NOVA YORK
FOLHA DE S. PAULO
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