terça-feira, 1 de junho de 2010

Entrevista com o Dr. João Carlos Campos Wisnesky, ex-guerrilheiro do Partido Comunista do Brasil nas selvas do Araguaia







Entrevista com o Dr. João Carlos Campos Wisnesky, ex-guerrilheiro do Partido Comunista do Brasil nas selvas do Araguaia




Por José Romero Araújo Cardoso




Militante comunista nas décadas de sessenta e setenta do século passado, o médico acupunturista Dr. João Carlos Campos Wisnesky participou ativamente do movimento guerrilheiro encabeçado pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B) nas selvas do Araguaia. Escapou milagrosamente da devassa efetivada pelas Forças Armadas quando da mais brutal repressão levada avante pela Ditadura Militar. Além das aventuras na floresta amazônica, Dr. João Carlos Wisnesky foi jogador profissional, conhecido por Paquetá, tendo defendido famosos times no Brasil e no Exterior. Formado em medicina, depois de verdadeira odisséia, devido a repressão e perseguições impostas pelos militares, escolheu Mossoró (Estado do Rio Grande do Norte) para residir e clinicar. Mantém na capital do oeste potiguar, na rua Melo Franco, número 197, de frente à lateral do Tiro de Guerra, a conhecida Clínica da Dor, realizando trabalhos acupunturistas. Foi como paciente que fiquei sabendo de sua história de vida. Nessa entrevista, Dr. João Carlos Campos Wisnesky nos conta um pouco de sua trajetória:

José Romero Cardoso: Onde e quando o senhor nasceu?

JCCW: Nasci no dia dois de junho de 1943, na ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro.

José Romero Cardoso: Seus pais militavam em algum movimento de massa?

JCCW: Não, meus pais são de tradição conservadora, católica. Meu pai descendia de poloneses, ele e a família eram bastante ligados á igreja.

José Romero Cardoso: Como foi sua formação educacional básica?

JCCW: As primeiras letras eu as aprendi na ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro.

José Romero Cardoso: Como teve início a sua militância?

JCW: Sempre estive presente nos movimentos da UBES (União Brasileira de Estudantes Secundaristas), da UNE (União Nacional dos Estudantes), etc. No movimento de 1968, quando da instituição dos anos de chumbo, principalmente com a decretação do AI-5 pelos militares, começou a minha efetiva militância partidária.

José Romero Cardoso: Quando do golpe de 64, o senhor já era militante do Partido Comunista do Brasil?

JCW: Não, quando do golpe de 1964 ainda não era militante do Partido Comunista do Brasil, aos poucos fui enveredando por esse caminho. Comecei a militar no partido em 1969.


José Romero Cardoso: Como e quando foi sua chegada na região do Araguaia?

JCW: Cheguei à região do Araguaia em outubro de 1971, quando a experiência guerrilheira já estava bem avançada, pois os quadros do partido começaram a ser deslocados para a selva no ano de 1966. O codinome com o qual fiquei conhecido na guerrilha do Araguaia foi Paulo Paquetá.

José Romero Cardoso: Como era o cotidiano dos membros do PC do B na região do Araguaia?

JCW: No geral o cotidiano dos membros do Partido Comunista do Brasil na região do Araguaia era consumido com trabalhos na roça, o que considerei verdadeiro desperdício.


José Romero Cardoso: Como era a relação com os moradores da região?

JCW: O contato com os moradores era feito pelo comando e era proibido para os guerrilheiros conversar com a população local. Tenho a opinião que isso significou um grande prejuízo, um desperdício de militantes preparados. Quando cheguei na região do Araguaia achei tudo muito estranho. Como fazer um exército popular se não podíamos nos comunicar com a população? Falei isso ao comando e não me responderam.

José Romero Cardoso: Quais as principais expressões do partido que se encontravam na região do Araguaia?

JCW: As principais expressões do partido que se encontravam na região do Araguaia eram formados por gente do quilate de João Carlos Haas Sobrinho, Oswaldo Orlando da Costa, o lendário Oswaldão, João Amazonas, Maurício e seu filho André Grabois, entre outros. No que tange aos militantes, eram formados pelos principais quadros do setor estudantil, como José Genoino e Glênio Sá, pessoas treinadas no diálogo com o povo.

José Romero Cardoso: Como foi o início da repressão militar?

JCW: A repressão se iniciou quando o serviço de informação dos militares começou a infiltrar espiões, entre os quais o mais conhecido, temido e odiado era o major Sebastião Curió. Ele e sua equipe abriram caminho para que os militares começassem a adentrar a selva em perseguição aos guerrilheiros e às pessoas que nos ajudavam

José Romero Cardoso: Quando começaram os combates?

JCW: Os comandantes guerrilheiros dividiram nossas forças em três destacamentos. Os combates entre as Forças Armadas e os guerrilheiros nas selvas do Araguaia tiveram início no dia 12 de abril de 1972, quando cerca de vinte soldados atacaram ponto de apoio do nosso Destacamento A, em São Domingos do Araguaia. No dia 14 de abril as Forças Armadas atacaram novamente, dessa vez foi contra o Destacamento C.

José Romero Cardoso: O senhor foi comandado por qual chefe guerrilheiro e como era a convivência do grupo?

JCW: Eu fazia parte do Destacamento A, comandado pelo médico gaúcho João Carlos Haas sobrinho.

José Romero Cardoso: Quais os principais combates que o senhor participou?

JCW: Foram muitos combates, lembro-me bem de um do qual o comandante João Carlos Haas Sobrinho saiu ferido no peito.

José Romero Cardoso: Como era o dia-a-dia dos guerrilheiros sob a ameaça constante da repressão militar?

JCW: Era um dia-a-dia de medo, terror físico e psicológico e muitas incertezas, pois as ordens de Brasília foram para que não ficasse pedra sobre pedra na região do Araguaia controlada pelos guerrilheiros do Partido Comunista do Brasil. Depois dos primeiros combates houve nítida intensificação dos rigores da repressão, ficando a mesma cada vez mais brutal.

José Romero Cardoso: Quem o senhor cita como os mais heróicos na defesa do território sob controle dos militantes do PC do B?

JCW: Todos, indistintamente.

José Romero Cardoso: E os mais covardes? Houve covardia dos militantes do PC do B na guerrilha do Araguaia?

JCW: Não, não houve covardia no Araguaia.


José Romero Cardoso: Quais as lembranças que o senhor guarda dos comandantes Oswaldão, Maurício Grabois e João Carlos Haas Sobrinho?

JCW: Lembranças boas, de homens serenos e tranqüilos, amigos de verdade.

José Romero Cardoso: Quando o senhor foi preso?


JCW: Fui preso não no Araguaia, mas em Anápolis, no Goiás, pela Polícia Civil. Consegui escapar do cerco das Forças Armadas e estava me escondendo.

José Romero Cardoso: O senhor faz alguma crítica sobre a guerrilha do Araguaia?

JCW: A principal crítica eu faço à direção do Partido, pois esta abandonou vivos e mortos nas selvas do Araguaia. Na floresta fui posto na “geladeira” por contestar ordenas absurdas, como a de não poder usar barba ou falar com as pessoas da terra

José Romero Cardoso: Por quê o senhor decidiu ser jogador profissional? Fale um pouco sobre a experiência no futebol.

JCW: Sempre gostei de futebol. Fui jogador profissional, fiquei conhecido por Paquetá, em referência à ilha em que nasci e morei. Como volante, atuei no América (RJ), onde me profissionalizei, no Flamengo e em times pequenos da França, Holanda e Bélgica. Ao voltar do Araguaia, no final de 1973, passei meses escondido na casa de amigos e parentes. Consegui me reinserir na sociedade pelo futebol. Quem me ajudou foram o compadre Afonsinho, o também médico Afonso Celso Garcia Reis, que jogou no Botafogo, Flamengo, Santos e Fluminense. Integrei também equipe de veteranos. Excursionei com os campeões do mundo Nilton Santos, Orlando Peçanha, Mané Garrincha e o ponta-esquerda Edú, que foi do Santos. Joguei ainda em Angola, em um projeto que unia música e futebol, idealizado pelos cantores Martinho da Vila e João Nogueira, nos anos 80.
Comecei a jogar futebol no juvenil do América (RJ). Em 1963 fui campeão carioca pelo Flamengo, mas não joguei nenhuma partida por que estava com hepatite. No ano seguinte fui para a Europa. Guardo como relíquias fotos com o craque argentino Di Stéfano.
José Romero Cardoso: Quando e onde o senhor se formou em medicina?

JCW: No fim de 1967 voltei da Europa disposto a fazer vestibular para medicina. Passei para a Faculdade Federal de Medicina e Cirurgia, atual Uni-Rio e abandonei o futebol. Depois dos percalços vividos nas selvas do Araguaia, retornei à faculdade e me formei em medicina.


José Romero Cardoso: Por quê decidiu optar pela acupuntura?

JCW: Por que a acupuntura é um dos pilares da medicina alternativa. Como você bem sabe, pois é meu paciente, a alopatia tradicional tem seus prós e contras. A acupuntura não deixa sequelas e conserva corpo e alma livres de males químicos que acarretam transtornos aos seres humanos.

José Romero Cardoso: Por quê escolheu Mossoró para residir e clinicar?

JCW: Em razão de ser uma cidade agradável, boa para se viver. Identifico-me com os valores e com o modo de vida simples de Mossoró
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